Essencialismo: A Filosofia de Focar no que Realmente Transforma
Descubra como o essencialismo pode transformar sua vida ao eliminar excessos, aumentar o foco e proteger sua saúde mental. Uma abordagem baseada em psicologia e neurociência para viver com mais propósito e produtividade.
FOCO E PRODUTIVIDADE
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Vivemos em um mundo com um “volume alto” de estímulos, expectativas e oportunidades — tanto que parece que sempre tem algo pra fazer, algo pra consumir, uma nova meta pra bater. E, no meio disso tudo, é comum nos sentirmos sobrecarregados, distraídos, culpados por não estarmos dando conta.
A filosofia do essencialismo propõe que a verdadeira liberdade vem de eliminar o que é menos importante, de aprender a dizer “não” com clareza, e de investir nossa energia e atenção nas escolhas que trazem impacto real — para nossa produtividade, para nossa saúde mental e para o sentido de realização.
O “sim” como inimigo silencioso
Dizer “sim” pode parecer uma maneira de ser cooperativo, prestativo ou “bom”. Mas muitas vezes o “sim” vem automático, sem reflexão, e ocupa um espaço enorme no nosso tempo e no nosso foco.
A neurociência mostra que nosso cérebro funciona com recursos limitados de atenção e autocontrole, localizados principalmente no córtex pré-frontal. Decisões complicadas ou decisões demais consomem esse recurso. Quando ele se esgota, passamos a responder de forma automática, procrastinamos ou aceitamos compromissos que não nos servem tão bem.
Por isso, essencialistas sugerem que cada vez que nos pedem algo, antes de dizer sim, vale fazer uma pergunta como: “Isso se alinha com meus objetivos mais importantes?” — uma checagem rápida que poupa energia mental.
Fazer o certo, não só fazer muito
A frase “menos, porém melhor” captura o cerne do essencialismo. A proposta não é fazer menos por fazer, mas priorizar profundamente.
Multitarefa: mito versus realidade
Quando tentamos fazer várias coisas ao mesmo tempo, na realidade o que acontece é um frequent switching entre tarefas — e cada troca exige que o cérebro “troque de contexto”, reposicione a atenção, relembre onde parou. Isso custa tempo, esforço e reduz a profundidade do trabalho.
Um estudo recente mediu a ativação cerebral durante multitarefa e troca de tarefas (“task-switching”), usando Ressonância Magnética Funcional (fMRI), e encontrou diferenças claras: regiões frontoparietais são sobrecarregadas, o desempenho cai. PubMed
Outro estudo demonstrou que pessoas que treinam para multitarefas melhoram, mas esse “melhorar” requer muito esforço, e ainda assim existe um teto de eficiência imposto pela estrutura neural. PubMed
Então, o Essencialismo propõe monotarefa (focar em uma coisa de cada vez), ou dedicar blocos de tempo com máxima atenção a tarefas importantes.
Fadiga decisória: nossas escolhas nos drenam
Com tantas opções — de carreira, produtos, hobbies, conteúdos — chegamos a um ponto em que cada escolha gera desgaste. Esse desgaste é chamado de fadiga decisória.
O que sabemos cientificamente:
A fadiga decisória envolve o mesmo córtex pré-frontal, que gerencia julgamento, autocontrole, planejamento. Com muita tomada de decisão, ele consome glicose, energia metabólica, e tem sua eficiência reduzida. Global Council for Behavioral Science+1
Existe evidência de que, conforme avançamos no dia ou em tarefas que exigem decisões consecutivas, nossa capacidade de escolher bem se deteriora — tendemos a escolher a opção mais fácil ou mesmo adiar decisões. PubMed+1
Também há impactos emocionais: mais irritabilidade, menor resiliência, menor clareza mental.
Portanto, o essencialismo propõe criar sistemas que limitem decisões banais ou repetitivas (rotinas, padrões, escolhas pré-definidas), de modo que a maior parte da energia mental esteja reservada para decisões estratégicas.
Estado de fluxo, foco profundo e saúde mental
Quando eliminamos distrações e escolhemos poucas prioridades bem definidas, abrimos espaço para aquilo que pesquisadores chamam de estado de flow (flow states) — aqueles momentos em que perdemos a noção do tempo, estamos completamente imersos, fazendo o trabalho fluir com clareza e motivação.
Estudos sobre flow mostram que ele aumenta produtividade, criatividade e satisfação. Pessoas em estado de flow também têm menos percepção de esforço, ficam menos suscetíveis ao estresse imediato.
Há pesquisas recentes que usam sensores fisiológicos (como monitoramento de batimentos cardíacos ou dilatação pupilar) para distinguir estados de trabalho profundo e flow de estados de distração ou fadiga. arXiv
Além disso, eliminar o que não é essencial ajuda a diminuir níveis de cortisol — o hormônio do estresse — e permite que o sistema límbico (parte emocional do cérebro) trabalhe de forma mais equilibrada. Resultado: menos ansiedade, melhor sono, mais clareza mental.
Exemplos práticos adicionais
Pra reforçar como o essencialismo pode se aplicar no cotidiano, algumas ideias mais detalhadas:
Calendário de não-decisões
Defina horários fixos para resolver coisas banais (responder emails, decidir lanches etc.) e bloqueie períodos do dia para focar nas tarefas profundas.Rotina matinal ou ritual de início
Comece o dia com as três tarefas mais importantes — as que mais vão contribuir para seus objetivos. Se possível, faça isso logo cedo, quando a energia mental está maior.Filtro de compromisso
Antes de aceitar qualquer novo projeto ou compromisso: usar uma lista de critérios (“Isso me move para onde quero estar?”, “Esse sim vai custar outro não importante?”, “Tenho energia para isso agora?”).Desintoxicação digital
Limitar drasticamente redes sociais, usar notificações seletivas, períodos sem celular ou distrações visuais. Cada interrupção “menor” vai somando e fragmenta o foco.Revisão periódica
Revisar semanalmente ou mensalmente tarefas, projetos ou ideias pendentes. Eliminar ou delegar o que não serve mais.
Ampliando o essencialismo com evidência científica
Aqui vão alguns resultados de estudos que ajudam a fundamentar o essencialismo:
Um estudo no multitarefa mostrou que o custo cognitivo de trocar entre tarefas é significativo, e regiões do cérebro como o córtex pré-frontal dorsolateral e partes do parietal entram em modo de alta demanda. PubMed
Também foi observado que pessoas com volume maior de matéria cinzenta no córtex pré-frontal têm melhores ganhos quando treinam multitarefa — ou seja, há correlações anatômicas com capacidade de foco e esforço cognitivo. PubMed
Pesquisas com estimulação elétrica transcraniana (tACS) sugerem que certas frequências cerebrais (ex: faixa theta) estão envolvidas na coordenação de tarefas múltiplas, e que modular essas frequências pode melhorar desempenho em multitarefa. PMC+1
Referências selecionadas
Aqui estão artigos e recursos confiáveis que embasam essas ideias — ótimos para quem quiser aprofundar:
“Building the multitasking brain: An integrated perspective on functional brain activation during task-switching and dual-tasking.” PubMed
“Prefrontal Cortex Structure Predicts Training-Induced Improvements in Multitasking Performance.” PubMed
“Enhancement of multitasking performance and neural oscillations by transcranial alternating current stimulation (tACS).” PMC
“The Neuroscience of Decision Fatigue: Why We Make Worse Choices at the End of the Day.” Global Council for Behavioral Science
“Detecting Affective Flow States of Knowledge Workers Using Physiological Sensors.” arXiv
Conclusão renovada do essencialismo
O essencialismo é muito mais que uma técnica de produtividade — é uma lente para enxergar sua vida, seu tempo e sua mente de um modo mais claro. É entender que cada escolha importa, que dizer “não” não é egoísmo, mas preservação, que eliminar excessos é uma forma de cuidado consigo mesmo.
Quando aplicamos esse modo de viver — com clareza sobre o que vale a pena, com filtros para decisões, com rotinas que protegem nosso foco —, não só rendemos mais, mas também nos sentimos mais tranquilos, mais plenos, menos pressionados.
E no final, isso é o que realmente conta: trabalhar menos no trivial para sobrar energia ao que nos faz crescer, ao que nos dá sentido, ao que nos inspira.


Sobre o autor:
Diego Jacferr é graduando em Psicologia pela Universidade Anhanguera - SP - Brasil.
Escreve artigos de divulgação científica com foco em psicologia e neurociência.


